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Tríades e Orixás: notas sobre “MM3”, terceiro álbum do Metá Metá

06 de julho de 2016 Bernardo Oliveira

 

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Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.
Foto: Fernando Eduardo

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Numa dessas noites, contagiado pelas libações da antemanhã (sinônimo cínico para a madrugada dos bebuns), percorria os vídeos do Youtube buscando desvendar os mistérios de Guardiola no período glorioso em que foi técnico do Barcelona. Nunca fui um advogado do Tiki-taka, ainda que parte desta antipatia tenha se originado do ressentimento, da incompreensão que se abateu sobre nós diante da incongruência entre o passado glorioso e a degeneração do futebol brasileiro. E, no entanto, em entrevistas e até mesmo em sua biografia, Guardiola cita a seleção brasileira como inspiração, particularmente aquela comandada por Telê Santana. Não estou certo quanto à veracidade dessa informação, mas o fato é que parti para uma comparação entre as progressões triangulares do Barcelona de Messi e Iniesta com o esquema de Telê na Copa de 82 e fiquei profundamente surpreso com a semelhança. Aquela seleção jogava em tríades móveis, tal como o time de Guardiola, que teria aperfeiçoado o esquema não só do ponto de vista técnico, mas também aproveitando-se do material humano excepcional que tinha em mãos.

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Ora, por que a triangulação? Porque auxilia a progressão, conduz o time em direção ao gol de maneira mais rápida e eficaz possível dentro de um esquema de jogo coletivo. O futebol, porém, não se resume a uma “matemática severa”: é preciso usar dos meios disponíveis para, literalmente, driblar o acaso e transformar a multiplicidade de triangulações em um movimento único, coeso. A música de João Gilberto procede de maneira análoga: para atingir as modulações que escutamos, por exemplo, na versão definitiva de “Retrato em Branco e Preto” — gravada ao vivo e editada no disco Live at the 19th Montreux Jazz Festival (WEA, 1986) — ele não se aprisiona à tríade harmonia, melodia e ritmo, mas, a partir dela, produz deslocamentos internos na própria estrutura da canção. Os elementos que fornecem as bases para a tríade musical em uma relação de reconhecimento — a melodia respaldando-se na harmonia, o ritmo organizando e embalando a melodia — são utilizados por João Gilberto de forma livre, com o claro intuito de recriar, remodelar a canção. A tríade progressiva possibilita uma espécie particular de sintonia dinâmica entre a melodia, a harmonia e o ritmo.

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Articulando-se em tríades, o Metá Metá chega a MM3, seu terceiro disco, em um movimento contínuo de propagação e simbiose. O grupo não abre mão das prerrogativas da canção brasileira: a melodia fluindo harmonicamente sobre os acordes, o balanço, o lirismo, a ênfase no canto, no ritmo. Não se furta também a explorar o rock e suas vertentes mais ruidosas, como o metal e o punk. O jazz não se limita à liberação do improviso, mas também por uma certa disposição do trio em testar continuamente estruturas e sonoridades, em diálogo não com o bebop, mas com Sun Ra e o free jazz. Há, porém, um quarto elemento, e ainda um quinto, um sexto, que derivam das sínteses, das reconfigurações que ocorrem necessariamente em contato com novas experiências. As escalas oscilantes da África Oriental, do Mali, do Marrocos. As sonoridades mornas da África banta, de Angola, Moçambique. Os signos das cosmologias afrodiaspóricas, a partir das quais Kiko Dinucci inaugura um novo estágio na utilização do Iorubá na canção brasileira. Outra tríade que se encerra e que se abre em triangulações infinitas, modulando conforme o ambiente e a canção.

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No primeiro disco do trio, lançado em 2011, a canção era soberana, ainda que remodelada por violões preparados e um repertório que fornecia as condições de possibilidade para a atualização vigorosa de alguns clichês da MPB. Na sequência, com Metal Metal (um título irônico, por vezes infame), o ingresso de dois elementos fundamentais: o baterista Sérgio Machado e o contrabaixista Marcelo Cabral. O repertório do grupo se torna mais encorpado, o caráter ruidoso e jazzístico se amplia, assim como a utilização de efeitos. Surgem canções mais pesadas como “Oyá” e “Rainha das Cabeças”. Entre o primeiro e o segundo disco, vale destacar um momento particularmente liberador: a versão de “Laroiê Exu” gravada em um show no Esporte Clube Lira Contemporânea, na qual Kiko Dinucci radicaliza a utilização percussiva do violão preparado, Thiago França explora não somente as escalas, arpejos e intervalos, como também os ruídos, enquanto Juçara solta a voz com uma disposição destoante daquela empregada no primeiro disco. Formou-se uma nova tríade, síntese que fez o trio avançar de forma difusa, para todos os lados. As parcerias entre os membros do trio-quinteto se intensificaram. A dinâmica triádica produziu uma coesão aberta, de modo a permitir que Sérgio Machado, Siba e Rodrigo Campos contribuíssem decisivamente nas composições.

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A tríade formada, libera o trio para tornar-se quinteto, como de fato funciona a tríade de Guardiola — sempre um ou dois jogadores na sobra para que a fluência da triangulação não se comprometa diante do acaso e das forças externas. Metal Metal foi gravado e o grupo seguiu em turnê, reforçando a sintonia, elevando a tensão, ampliando as prerrogativas libertárias do jazz e da música africana. Contendo gravações de canções tocadas apenas nos shows (entre elas, “Me perco nesse tempo”, clássico das Mercenárias),Meta Metá EP é editado em 2015, indicando que o trio-quinteto partiu para novas triangulações, cuja característica contraditória é a de permanecerem abertas, assimilando não só as experiências do percurso, como também apostando na potência do conjunto, da vidência comum aos artistas que trabalham com o acaso e o improviso em processos coletivos.

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Sobre esses elementos simultaneamente coesos e abertos, o trio-quinteto se transfigura em uma criatura de muitas cabeças, sem nunca deixar de se constituir como uma tríade primordial: Metá-Metá. Segundo Reginaldo Prandi em sua Mitologia dos Orixás, o infeliz Logun Edé beneficiou-se dos cuidados de Oxalá, que, piedoso de sua infelicidade, lhe proveu sabedoria e compreensão. Porque era ganancioso e sequioso de bajulação, Logun Edé traiu Oxalá e foi castigado da seguinte forma: “Oxalá então determinou que Logun Edé fosse homem durante um período, e no outro fosse mulher. Nunca haveria a possibilidade dele ser completo, e teria a sina de sempre começar tudo novamente.” [1] A questão, assim, não se resume à tríade, aos “três amigos”, mas a uma certa abertura, uma incompletude plena, desprovidas de travas e recalques. Metá Metá é também um vetor de hibridização e abertura para o deslocamento contínuo: é homem e mulher, mas está para além das classificações usuais para “homem” e “mulher”; é devir-mulher, devir-animal, devir-vespa, devir-martelo, como escreveria outro Orixá de muitas cabeças. O poder de Metá-Metá seria o de “hibridizar características”: