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Tribuna Livre: Bonecas abayomis e o candomblé

 

22 ago, 2017

por: Marcio Auler

“As religiões de matriz africana,  reitero, não fazem uso destas bonecas em seus rituais”

Um fato muito me chamou a atenção na última semana: foram retiradas bonecas abayomis de uma escola municipal de Vitória, escola esta que fica em um espaço compartilhado por uma igreja. Peço licença para citar Mahatma Gandhi na perspectiva de um melhor entendimento do texto que segue “A raiva e a intolerância são as inimigas gêmeas da compreensão correta”.
A justificativa de tal atitude, é que estas bonecas seriam representações de Orixás, o que é uma inverdade. As religiões de matriz africana não têm por doutrina o culto a imagens, nem tampouco a bonecos. Nós cultuamos a Natureza em sua essência: terra, água, fogo, ar, folhas… Não fazemos nenhum tipo de representação de nossos orixás em imagens ou bonecas.
Certo é que, nos primórdios do candomblé brasileiro, os negros escravizados tinham que disfarçar o culto, onde surgiu o sincretismo religioso. Por imposição dos europeus, que tinham no catolicismo sua religião predominante, os negros trazidos do continente africano eram obrigatoriamente rebatizados dentro dos preceitos cristãos, eram obrigados a suprimir sua crença e passar a crer nesses dogmas. Muitos de fato converteram-se, entretanto, outros resistiram, e passaram a sincretizar as imagens de santos católicos com os orixás africanos (São Jorge com Ògún, São Sebastião com Òòsóòsí, Santa Bárbara com Òiá, dentre outros tantos). Este sincretismo se fez necessário para sobrevivência do culto aos orixás africanos, o que, com o passar dos anos, tornou-se o nosso candomblé.
As bonecas abayomis foram também trazidas ao Brasil pelos escravos, que as faziam com tecidos retirados de suas próprias vestes para suas crianças durante as longas viagens dentro dos navios negreiros, para tentar, de alguma forma, suprimir o sofrimento por elas sentido durante essa triste jornada.
As religiões de matriz africana, mais uma vez reitero, não fazem uso destas bonecas em seus rituais. A única ligação existente entre nós é o fato de também terem sido introduzidas na cultura brasileira pelos escravos africanos. Ora, tantas outras coisas também foram introduzidas por eles: comidas, palavras, danças, ritmos, costumes entre outros.
Afirmar que as bonecas abayomi são obras de “macumbaria” nada mais é que mostrar a sociedade uma face raivosa, impaciente e acima de tudo de   ignorância, é fomentar o preconceito e a discriminação, é promover de forma velada a intolerância religiosa. Cercear as crianças de terem o conhecimento da cultura africana é no mínimo passível de repúdio.
A exposição de bonecas abayomis não interfere na laicidade de nosso Estado, defender isso é ignorar a legislação e desconhecer a História. O estado laico não proíbe o conhecimento de culturas e costumes, proíbe sim a imposição deles perante a sociedade. A laicidade nos permite escolher entre a diversidade, nos possibilita conhecer e entender todos estes dogmas e nos aprofundar e seguir o que nos interessar. Assim como o Estado, a educação também é laica, e cercear o aprendizado da Cultura Afrodescendente (Lei 10639/2003) é tentar impor, de forma não velada, apenas um ponto de vista, uma cultura de vertente eurocêntrica.
O candomblé prega a paz, o amor, o respeito para com a diversidade e principalmente, a harmonia entre todas as pessoas, independente de credo.

Marcio Auler (Marcio de Oxoguian) é egbon, professor e técnico de segurança do trabalho

 

 

Extraído do site do Jornal Tribuna on line / Vitória – ES
https://www.tribunaonline.com.br/tribuna-livre-bonecas-abayomis-e-o-candomble/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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