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Um banquete junino para Xangô nas ruas do Recife

Publicado por Bruno Albertim às 9:00

 

Presidente da Organização de Mulheres Negras de Pernambuco, a carioca Vera Baroni tem com a faca uma intimidade que faz da lâmina o prolongamento do braço. Voz serena, concentração paciente nos olhos por trás dos óculos, ela explica a diferença: “Para o caruru, o quiabo tem que ser cortado o mais miudinho possível. Aqui, é diferente”, diz ela, mostrando as “rodelas” de quiabo cortados na diagonal. Só assim, meio enviesado no corte, o legume pode integrar um legítimo beguiri de Xangô.

Vera Baroni: a iabassé prepara o prato preferido de Xangô. Foto: J.P. Magero / 485 Filmes
Vera Baroni: a iabassé prepara o prato preferido de Xangô. Foto: J.P. Magero / 485 Filmes

De amanhã até domingo, Vera se muda do terreiro de candomblé ao qual é filiada para chefiar a cozinha da Roça Oxagiã Oxum Ipondá, localizada na ladeirosa e simpática Rua dos Três Morros, Córrego do Jenipapo, subúrbio do Recife diante do qual a Avenida Norte deságua na BR-101. No comando das panelas do terreiro do babalorixá e amigo Júnior De Ajagunã, a intelectual e militante ajuda a dar uma conotação especial à culinária celebrativa dos festejos juninos no Recife. Ali, pratos da cozinha litúrgica de matriz africana são preparados ao lado das tradicionais iguarias à base de milho.

“Xangô é o orixá da justiça e da fartura, por isso, acabou sincretizado com São João e é comemorado no mês em que a safra do milho é usada para os pratos da celebração”, ela diz. Além de se divertir com ritmos e rituais do período, não apenas do candomblé, já que a programação, ecumênica, conta até com missa campal, a comunidade e visitantes poderão conhecer esse prato que dificilmente pode ser encontrado em restaurantes.

No terreiro do Córrego do Jenipapo, louvações e rituais antecedem a comida. Foto: J.P. Magero / 485 Filmes
No terreiro do Córrego do Jenipapo, louvações e rituais antecedem a comida. Foto: J.P. Magero / 485 Filmes

Uma das raras festas juninas dedicadas a Xangô no Brasil, a festança é aberta ao público, que pode, ao final da programação de cada dia, provar das iguarias. Entre elas, como ponto alto do festival Ejilá Oxé Oborá – A Fogueira Sagrada do Rei, está o pouco conhecido beguiri. “Além das comidas de milho, o beguiri será servido para o público por uma equipe especialmente destacada para isso”, diz o babalorixá Júnior De Ajagunã.

É uma festa para atiçar, também, olhos e ouvidos. Amanhã, na abertura oficial, ao meio-dia, haverá a Saudação a Xangô, com o Alujá, toque típico do orixá executado por doze atabaques chamados de ilus, saudações aos orixás e queima de fogos. “É o toque mais forte que existe no candomblé”, diz o babalorixá. Às 14h, o escritor Jorge Arruda lança o livro Oferendas Votivas, Orixás e Encantados Comem e Dançam. “A comida é um dos principais elos de comunicação e comunhão entre os orixás e os homens”, diz o autor. Entre o sábado e domingo, quadrilhas juninas e grupos como o Afoxé Ilê de Êgbá e o Maracatu Estrela Brilhante se apresentam do começo da tarde às dez da noite. No domingo, depois da missa com o Padre Clóvis (18h), a festa tem culminância com a homenagem a babalorixás e ialorixás (19h) e o xirê, a saudação aos orixás, com doze atabaques. É quando o banquete ganha a rua.

Prato preferido de Xangô, o beguiri lembra um caruru. Menos pastoso, consistente, o quiabo é cozido com pedaços de músculo de boi e grandes camarões secos. Além de dendê, gengibre, castanha e cheiro verde no tempero. E muito zelo no preparo. Iabassê – ou seja, dona do posto de cozinheira cerimonial no candomblé – Vera Baroni também servirá a comida. “A mesma mão que prepara a comida oferece o alimento”, lembra.

O beguiri de Xangô leva quiabo, camarões e carne: parece, mas não é um caruru. Foto: J. P. Magero / 485 Filmes
O beguiri de Xangô leva quiabo, camarões e carne: parece, mas não é um caruru. Foto: J. P. Magero / 485 Filmes

 

Ejilá Oxé Oborá – A Fogueira Sagrada do Rei. 10, 11 e 12 de junho. Sexta, 12h às 20h30; sáb, 14h às 22h20; Dom, 12h às 21h50. Roça Oxagiyan Oxum Ipondá, Rua Três Morros, 35 B – Córrego do Jenipapo. Entrada franca.

 

 

Extraído da coluna Frigideira, do JC online / Recife – PE
http://jc.ne10.uol.com.br/blogs/frigideira/2016/06/09/sao-joao-xango-menino-um-baquete-junino-pro-orixa-nas-ruas-do-recife/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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