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UMBANDAIME No Bairro Ipiranga, fraternidade combina umbanda e santo-daime

 

Conheça o chá que mistura África e Amazônia em Belo Horizonte. Centro espiritualista recebe mais de 200 pessoas semanalmente

 

postado em 28/06/2015 06:00 / atualizado em 28/06/2015 07:12

Daniel Camargos /

18/06/2015. Credito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG. Fraternidade KaymanŽ uma instituicao de natureza social, baseada nos principios do altruismo, do amor ao proximo e da solidariedade. Fundada em 2002 fica localizada no bairro Ipiranga. A comunidade realiza trabalhos nas areas do Santo Daime, do Umbandaime, pajelanca e na linha espirita. As quintas na casa acontecem os trabalhos do Umbandaime que pratica a linha do Santo Daime dentro da religiao do Umbanda.
18/06/2015. Credito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte – MG. Fraternidade KaymanŽ uma instituicao de natureza social, baseada nos principios do altruismo, do amor ao proximo e da solidariedade. Fundada em 2002 fica localizada no bairro Ipiranga. A comunidade realiza trabalhos nas areas do Santo Daime, do Umbandaime, pajelanca e na linha espirita. As quintas na casa acontecem os trabalhos do Umbandaime que pratica a linha do Santo Daime dentro da religiao do Umbanda.

Jesus Cristo, Oxalá, São Jorge, Ogum, São Sebastião, Oxossi, Nossa Senhora da Conceição, Oxum, São Jerônimo e Xangô; Krishna, Ganesha e Shiva; Curupira, caboclos, águia, golfinho, lobo, boto, sacis e demais seres encantados da floresta ladeiam outras imagens nos vários altares do Centro Espiritualista Fraternidade Kayman, onde ocorrem os rituais de umbandaime – uma união da umbanda, de inspiração africana, e do santo-daime, manifestação religiosa de origem amazônica – em Belo Horizonte. As grutas são iluminadas em diferentes cores, em harmonia com o teto densamente enfeitado por pequenas bandeiras multicoloridas. Quem observa pela primeira vez o espaço – em um terreno de 1.200 metros quadrados no Bairro Ipiranga, Nordeste de Belo Horizonte, distante apenas 5,2 quilômetros da Praça Sete – pisca algumas vezes para ajustar a visão a vários matizes. Se é noite de quinta-feira, é preciso focar mais do que as vistas.

As mais de 200 pessoas que vão à fraternidade todas as semanas para as cerimônias do umbandaime entram em sintonia ao ritmo dos atabaques, assistem aos médiuns incorporarem entidades e recebem passes. Quem deseja, toma o chá da ayahuasca, bebida elaborada com a mistura do cipó jagube (Banisteriopsis caapi) com a folha rainha (Psychotria viridis), base do santo-daime. Há quem considere a beberagem um alucinógeno. O termo é repudiado pelos fiéis, que preferem a palavra enteógeno, pois abrange a ideia de ligação religiosa.

A Fraternidade Kayman foi fundada há quase 13 anos por Robespierry Caetano, médium e pai de santo, que incorpora Pai João de Aruanda, um preto velho. Pierry, como é conhecido, ficou famoso em 1992, por ter vislumbrado – segundo ele, por contato espiritual – a localização de parte dos destroços do helicóptero que matou o político Ulysses Guimarães. Após ganhar notoriedade, ele viajou por todos os estados brasileiros por sete anos, realizando cirurgias espirituais. De acordo com seus cálculos, fez mais de 1 milhão de operações, usando como instrumento mais complexo uma prosaica faca de cozinha.

Veja o vídeo da cerimônia

https://youtu.be/u9QZiBYvjFY

MISSÃO Nascido em uma fazenda em Ouro Verde de Goiás, Pierry escolheu Belo Horizonte para viver desde o ano 2000. Decidiu abrir a Fraternidade após ter uma miração (termo usado entre os daimistas para definir uma visão estimulada pelo chá) quando tomou a ayahuasca pela primeira vez. “Eu pude ver que religião significa religar. Unir todas as linhas de pensamento e força. Em nome do amor. Em nome da paz. Em nome do bem. Eu via que todas as religiões eram boas para mim”, descreve Pierry. Foi com a autorização dele que a equipe de reportagem do Estado de Minas acompanhou uma cerimônia de umbandaime e uma do santo-daime.

A cerimônia do umbandaime é chamada de desenvolvimento mediúnico e começa por volta de 19h30, sempre às quintas-feiras. Quem deseja beber a ayahuasca precisa preencher uma ficha. Entre os questionamentos estão perguntas sobre eventual uso de algum medicamento ou droga. Após o preenchimento, é feita uma entrevista com Pierry. Se o novo participante é liberado, paga R$ 30. Quem não deseja beber o chá pode participar sem pagar nada. Outra condição para tomar a infusão é permanecer no local até o fim da cerimônia, que dura cerca de quatro horas.

Na quinta-feira em que o EM acompanhou os ritos, ocorreu uma Gira de Incorporação. Gira é a designação da sessão religiosa de umbanda; incorporação significa que entidades serão incorporadas pelos médiuns, que afirmam receber espíritos de caboclos, pretos velhos, crianças e demais entidades, guiados pela batida dos atabaques, por músicas e hinos, os pontos de Umbanda.

A cerimônia começa com Pierry, já incorporado como Pai João de Aruanda, rezando um pai nosso e uma ave-maria. Com a voz alterada, remetendo a um senhor bem mais velho que os 44 anos que tem, o fundador convoca todos a repetir: “Eu sou feliz! Eu sou feliz porque eu sou filho de Deus. Eu sou feliz porque eu sou eu”. Todos entoam as frases em uníssono.

Às 19h50, é servida a primeira dose de ayahuasca. Enquanto forma-se a fila, Pierry (Pai João) prega: “Tem gente que vem tomar o daime para ficar maluco. O daime é para acabar com a maluquice”. Para beber o chá, os homens devem estar com os pés descalços, vestindo calça e blusa cobrindo os ombros. As mulheres também precisam estar descalças, com saias longas e blusas cobrindo ombros e a barriga.

Com todos em silêncio, é possível escutar o barulho dos copos de vidro vazios de daime tilintando na bandeja. “O daime é para todos, mas nem todos são para o daime”, diz, quebrando o silêncio, Pierry (Pai João). Depois de 10 minutos, começam os preparativos para a gira. Um filho da casa,  o defumador, passa por todo o salão defumando o ambiente, enquanto é saudado por uma música. Quando a fumaça se aproxima das pessoas, elas rodopiam e fazem um gestual, com as mãos como se chamassem a fumaça.

As músicas são executadas por um trio de atabaques e um coro de vozes femininas. Todos ajudam ritmando com palmas. Aqueles que manifestam mediunidade começam a incorporar as entidades. Os filhos batizados na casa, que estão sentados nas primeiras cadeiras, são os primeiros a se levantar, e se dirigem ao centro da roda. Dançam, giram e algumas mulheres tampam o rosto com os cabelos compridos jogados para frente. A incorporação, geralmente, é precedida por um tremor intenso, em que os braços do médium balançam tanto que parecem sem controle. Fiéis mais experientes ficam a postos para auxiliar visitantes que manifestem mediunidade e comecem a incorporar.

18/06/2015. Credito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG. Fraternidade KaymanŽ uma instituicao de natureza social, baseada nos principios do altruismo, do amor ao proximo e da solidariedade. Fundada em 2002 fica localizada no bairro Ipiranga. A comunidade realiza trabalhos nas areas do Santo Daime, do Umbandaime, pajelanca e na linha espirita. As quintas na casa acontecem os trabalhos do Umbandaime que pratica a linha do Santo Daime dentro da religiao do Umbanda.  Na foto cha do Daime.
18/06/2015. Credito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte – MG. Fraternidade KaymanŽ uma instituicao de natureza social, baseada nos principios do altruismo, do amor ao proximo e da solidariedade. Fundada em 2002 fica localizada no bairro Ipiranga. A comunidade realiza trabalhos nas areas do Santo Daime, do Umbandaime, pajelanca e na linha espirita. As quintas na casa acontecem os trabalhos do Umbandaime que pratica a linha do Santo Daime dentro da religiao do Umbanda. Na foto cha do Daime.

INSPIRAÇÃO DA FLORESTA Ao lado de Pierry, na frente dos altares e alinhado com os músicos, estão dois indígenas da tribo Yawanawá, do Acre: o pajé Tatá Yawanawá, de 102 anos, e o neto dele, Rasu Yawanawá. Além de adotar a umbanda e o santo- daime, a Fraternidade Kayman se vale de ritos indígenas. Rasu e Tatá estavam lá pois participaram de duas pajelanças na Fraternidade, em que também foram usados a ayahuasca e o rumã (rapé).
Às 21h, é servida a segunda dose do daime. Dez cadeiras são dispostas no centro do salão e Pierry (Pai João) dá as instruções para os médiuns incorporarem os pretos velhos. Um senhor acende um grande cachimbo e fica de pé no meio das cadeiras. Pretos velhos e seus cavalos – como os médiuns são chamados – tomam seus lugares.

Os filhos da casa usam roupas totalmente brancas e colares (guias) de contas coloridas. Os que estão na organização da gira convidam, um a um, os presentes a receber atendimento dos médiuns incorporados. Do lado direito do salão, há uma porta para a chamada “sala de cura”. Com cinco macas, uma luz azulada e a parede decorada por vários quadros, incluindo médicos que Pierry relata incorporar. Lá, outros filhos da casa fazem atendimento espiritual enquanto ocorre a gira.

Após uma hora, terminam os atendimentos. Pierry (Pai João) bate o atabaque com força, e os músicos voltam a tocar e a cantar. É a vez de os médiuns incorporarem crianças (erês). São distribuídas balas, doces e pirulitos, e a movimentação no centro da roda se aproxima de um estado de êxtase, com muitas pessoas deitadas e com os pés para cima.

Quase 22h30. As luzes são apagadas, Rasu Yawanawá toca violão e canta uma bela música em seu idioma nativo, por quase 10 minutos. Todos assistem assentados. Na segunda música, com a batida do violão mais sincopada, os filhos da casa voltam a receber entidades e bailar no meio do salão. A cerimônia termina com Pierry (Pai João) rezando um pai-nosso e uma ave-maria.

Do lado de fora da Fraternidade, na rua Pio X, já é sexta-feira. Poucas luzes estão acessas nas janelas dos prédios vizinhos ao local. Os motoristas dos poucos carros que passam em alta velocidade pela Avenida Cristiano Machado dificilmente imaginam a cerimônia que acabou de acontecer a apenas três quarteirões de uma das principais vias da capital.

 

Extraído do site do Jornal EM / Belo Horizonte – MG
http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/06/28/interna_gerais,662628/no-bairro-ipiranga-fraternidade-combina-umbanda-e-santo-daime.shtml

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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