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Vândalos atacam terreiro no Entorno do DF pela terceira vez este ano

04/12/2015 18h51 | Brasília

Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil

Pela terceira vez em 2015, vândalos atacaram o terreiro Ile Aira Axe Mersan Orun, localizado em Valparaíso de Goiás, município do Entorno do Distrito Federal. O ataque ocorreu na terça-feira (1°), quatro dias após outro terreiro de candomblé – o Axé Oyá Bagan, no Núcleo Rural Córrego do Tamanduá (DF) – ter sido incendiado.

“Por sorte o terreiro estava vazio na hora da invasão”, informou à Agência Brasil a cuidadora dos orixás (Ekedij) do Ile Aira, Andreia Ramos. “Provavelmente os invasores tinham conhecimento de nossa rotina e o invadiram durante a tarde, quando o local costuma ficar vazio. Foi assim nas três invasões recentes, ocorridas em janeiro, agosto e em dezembro.”

Entre as suspeitas de parte dos cerca de 40 religiosos que frequentam o local estão imobiliárias interessadas em comprar o terreno e intolerância religiosa ou racismo. As suspeitas foram reforçadas pelo fato de os invasores não terem levado coisas de valor. “Levaram apenas botijões de gás, um notebook e uma pequena quantidade de dinheiro que estava mais visível”, informou a Ekedij.

Segundo ela, havia joias, ferramentas e objetos de venda fácil no terreiro. “Nada disso foi levado. O que eles fizeram foi uma bagunça fora do comum. Reviraram a casa, quebraram louças, um barraco onde a comida de santo é feita e espalharam roupas por toda a casa.”

O grupo está no local há dez anos. “Quando chegamos, era um setor de chácaras sem casas por perto. Agora, tudo virou condomínio. O terreiro está na única chácara da localidade. Sabemos que há interesse da especulação imobiliária, porque já recebemos várias propostas de compra, todas recusadas”, informou a religiosa. “Também é possível que seja um caso de intolerância religiosa, porque percebemos olhares de estranhamento de alguns vizinhos preocupados com o risco de desvalorização do imóvel pelo fato de haver um terreiro na vizinhança”.

Nenhum tipo de agressão física foi praticada durante a última invasão. “Mas ficamos psicologicamente afetados, principalmente pela falta de segurança, uma vez que nossa mãe de santo mora lá. Temos muito medo de que isso ocorra novamente quado ela estiver sozinha”, acrescentou.

De acordo com Andreia, o grupo religioso é bastante reconhecido pela preocupação em atender comunidades carentes da região, às quais oferece alimentos e ceias de Natal, entre outras ajudas. “A gente tem sempre o cuidado de ajudar as pessoas. Nos deixa muito tristes sermos vistos como demônio ou capeta por pessoas que sequer nos conhecem. Nosso trabalho é totalmente inverso a isso.”

Um boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia do Céu Azul, mas, conforme Andréia, tudo ficou restrito a essa ocorrência. Nenhuma investigação foi aberta e nenhuma providência foi tomada.

“A polícia sequer foi ao local. A única vez que visitaram o terreiro foi após a segunda invasão deste ano, em agosto, quando o policial sugeriu que nos mudássemos, porque, segundo ele, a situação poderia piorar. Foi um descaso total, porque nem perícia foi feita. Os crimes são de intolerância religiosa e racismo, mas o boletim de ocorrência escondeu isso. O caso foi registrado como simples roubo de residência.”

Andreia Ramos afirmou que os religiosos estão dispostos a uma relação cordial com a vizinhança. “Somos uma religião de matriz africana. Temos uma história que vem de longa data, que passou por gerações. Nossa sugestão é que, antes de nos julgar, venham nos conhecer e o nosso trabalho, para que vejam que somos pessoas como outras de qualquer religião. Fazemos o bem e trabalhos solidários. Socorremos os que vêm buscar ajuda. Podemos ser ótimos vizinhos.”

A reportagem da Agência Brasil ligou para a Delegacia de Céu Azul, na tentativa de falar com o delegado Oleomar Miranda, que não foi encontrado. Sobre a invasão ao terreiro Axé Oyá Bagan, policiais da 6ª Delegacia de Polícia informaram que aguardam a conclusão da perícia, mas prosseguem com as investigações.

 

Edição: Armando Cardoso

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

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