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Visitantes não respeitam área restrita do Cais do Valongo, na Zona Portuária

Local foi considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco recentemente

Flagrante de pessoas entrando na área restrita do Cais do Valongo – Divulgação/Erika Broca / Divulgação/Erika Broca

 

POR SIMONE CANDIDA

01/08/2017 13:17 / atualizado 01/08/2017 16:35

 

RIO — Elas contam uma parte da historia da escravidão no Brasil e deveriam ser preservadas, mas tem gente pisando, sentando e até fumando em cima das pedras do Cais do Valongo, na Zona Portuária. Desde que o local foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, no último dia 9 de julho, o número de visitas ao ponto turístico aumentou, mas muitos destes visitantes não têm respeitado os limites da cerca. Segundo comerciantes e moradores da Zona Portuária, são comuns casos de pessoas que invadem o espaço para fazer selfies sobre as pedras. E à noite, moradores de rua também usam as pedras para estender seus cobertores.

A mãe de santo Celina de Xangô, presidente do Centro Cultural Pequena África, publicou fotos e denunciou o descaso nas redes sociais. Ela está preocupada com a falta de fiscalização no local.

— Estou muito triste e preocupada. Lutamos tanto pelo reconhecimento daquele lugar. As pessoas entram para fazer foto, passeiam lá dentro, daqui a pouco vão fazer piquenique. Isso é um absurdo — lamenta.

A mãe de santo conta que desde a primeira lavagem das pedras do Cais do Valongo, em 2012, ficou acertado entre a prefeitura, as lideranças religiosas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que o acesso à área das pedras, encontradas durante uma pesquisa arqueológica em 2011, seria restrito.

— Nem mesmo durante a lavagem as pessoas entram. Temos que preservar. Se as pessoas ficarem entrando, vai acontecer um desgaste — diz ela, que reclama da falta de guardas municipais no entorno — Mas isso está assim há muito tempo. Nunca tem guarda por lá — completa.

O sítio arqueológico declarado Patrimônio da Humanidade é composto por vestígios do calçamento de pedras, construído a partir de 1811, para o desembarque dos africanos escravizados trazidos para trabalhar no Brasil, além de porto de pedra construído para trazer a princesa Tereza Cristina de Bourbon, esposa do Imperador Dom Pedro II, em 1843. A área corresponde a da atual Praça do Comércio e seus limites são a Avenida Barão de Tefé, a Rua Sacadura Cabral e lateral do Hospital dos Servidores do Estado. Nas cercanias do porto, havia armazéns, onde os negros recém-chegados eram expostos para venda, o Lazareto, local de tratamento dos doentes, e o Cemitério dos Pretos Novos, onde os que morriam logo na chegada eram enterrados.

Além de resgatar as estruturas de pedra, as escavações, iniciadas em janeiro de 2011, encheram sete contêineres, com centenas de milhares de objetos como dentes de porco, colares e rochas recolhidas no entorno. Muitas das peças eram usadas em rituais religiosos ou como amuletos pelos negros que aportaram no Cais do Valongo entre 1811 e 1843. Entre as raridades, havia uma caixinha de jóias, esculpida em antimônio, com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas na tampa. Dentro da caixa, foram encontradas 1.700 miçangas com cerca de 1 milímetro de diâmetro. Este material, quase 500 mil peças, permanece sob a guarda da prefeitura, num dos galpões da Gamboa, que deveria abrigar o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU)

Depois da conquista do título, o Cais do Valongo agora se encontra no mesmo patamar da cidade de Hiroshima, no Japão, e do Campo de Concentração de Auschwitz, na Polônia, classificados como locais de memória e sofrimento. O local é o único cais de desembarque de africanos escravizados ainda preservado materialmente. Pela magnitude do que representa, coloca-se como o mais destacado vestígio do tráfico negreiro no continente americano.

A Guarda Municipal do Rio informou, por meio de nota, que iniciou o patrulhamento do Cais do Valongo no dia 21 de julho com dois guardas da Unidade de Ordem Pública (UOP) Porto Maravilha atuando das 7h às 19h. No período noturno, uma viatura com quatro guardas patrulha o local em rondas aleatórias.”. Uma equipe de O GLOBO esteve hoje, 15h, no Cais do Valongo e não viu nenhum guarda.

Além da segurança, a limpeza do bem tombado (o Cais é protegido pelo município) também está descuidada. Nesta tarde, havia guimbas de cigarro e restos de uma touca higiênica largados no chão do monumento.

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro
https://oglobo.globo.com/rio/visitantes-nao-respeitam-area-restrita-do-cais-do-valongo-na-zona-portuaria-21655091#ixzz4otQ6oSHS 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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