Breaking News

Vizinhança de santo

Cleidiana Ramos | Seg, 25/05/2015 às 16:02

 

Fotos: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

 

 

Mãe Iara torce pelo tombamento da pedra. No ano passado, espalharam quilos de sal grosso ao seu redo
Mãe Iara torce pelo tombamento da pedra. No ano passado, espalharam quilos de sal grosso ao seu redo

 

O Loteamento Santo Antônio, em Cajazeiras 11, concentra um grande número de terreiros de candomblé  fundados a partir dos anos 1990. As áreas remanescentes de mata e mananciais são o atrativo para pais e mães de santo  

A1ª Travessa Paloma do Carmo, em Cajazeiras 11, tem apenas sete imóveis. O acesso é difícil. Em período de chuvas, descer a ladeira requer cuidado, para evitar os pontos onde a terra se torna lama. Mas a vista, ao chegar ao topo, compensa. Mata fechada, limites que se perdem no horizonte e, no finzinho da rua, as águas que encorpam o rio Ipitanga. A natureza foi fundamental para seduzir três dos proprietários, sacerdotes e sacerdotisas de candomblé que ali instalaram seus templos.

Na rua vizinha – batizada como 2ª Travessa Paloma do Carmo – há mais dois terreiros. Estão lá há 18 anos, e há um novo sendo construído no momento. A apenas 800 metros, na rua Flaviano da Apresentação, contam-se mais seis. A estes somam-se outros 12, na rua Nossa Senhora de Lourdes. Essas  localidades formam o Loteamento Santo Antônio, considerado um mundo à parte em Cajazeiras. Por conta da quantidade de templos afro-brasileiros, a região acabou ficando conhecida como “Shopping dos Terreiros”.

Mas a denominação não é consenso. Alguns não gostam, como o babalorixá Edivaldo Cordeiro, 71 anos, há 30 no local.  “Para mim, aqui é rua Nossa Senhora de Lourdes”, diz, enfático. “Quando cheguei, era tudo mato fechado e já existiam dois terreiros. O primeiro foi de Manoel de Oxalá. Aos poucos é que foram chegando os outros”. Além da natureza exuberante, a oferta de lotes a preços módicos – em média, cerca de R$ 10 mil  –  tem atraído pais e mães de santo à região.

Ali, os terreiros mais antigos não passam de quatro décadas, diferentemente dos localizados na Federação, que se formaram, em sua maioria, na segunda metade do século 19 e início do século 20. Na época, o bairro foi o  destino de templos estabelecidos em áreas como a  Barroquinha, num processo migratório que especialistas apontam como consequência da repressão  contra a população negra, inclusive a liberta, após o levante dos malês – a rebelião escrava mais famosa das Américas, ocorrida em 1835. A presença de tantos  terreiros torna natural encontrarmos , nas ruas, pessoas vestidas com as “roupas de ração” do candomblé: saia rodada para as mulheres e  calça e camisa brancas para os homens, além do uso dos colares de contas.

Na Nossa Senhora de Lourdes, um grupo que está batendo papo na porta de um bar cumprimenta efusivamente o  babalorixá Adilson Reis dos Santos, 43. Líder de um terreiro instalado há 11 anos no local,  ele  é um dos sacerdotes mais populares da região e  diz conviver de forma tranquila com vizinhos de outras religiões. “Já houve alguma tensão, sim,  mas tudo foi resolvido com diálogo”.

É com a ajuda dele  que  Marta da Silva Ribeiro, 56,  conhecida como Farami , está instalando o terreiro que  vai dirigir numa área que fica em frente. Adilson  a auxiliou, por exemplo, no momento de iniciar um filho de santo do terreiro dela, que mesmo com a casa em construção teria  que ser realizada.      “Aqui é assim. Um vai ajudando o outro e prestigiando as festas sempre que possível”.

Interior de um terreiro no Loteamento Santo Antônio, em Cajazeiras 11
Interior de um terreiro no Loteamento Santo Antônio, em Cajazeiras 11

Mapeamento

Dados estatísticos confirmam o que se observa in loco. Em 2008, foi divulgado o estudo Mapeamento dos Terreiros de Salvador, feito em parceria entre o Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba (Ceao) e a Secretaria Municipal da Reparação (Semur). A ideia era obter dados para a regularização fundiária dos templos. O levantamento acabou virando uma espécie de  censo da religião afro-brasileira na capital, com informações que incluem o gênero predominante entre os sacerdotes, a formação profissional e a quantidade exata de templos. Na época, 1.155.

Em Cajazeiras 11, foram registrados 32 terreiros e uma curiosidade. Desse total, apenas três surgiram na década de 1970. “Os outros têm sua fundação situada a partir dos anos 1980”, diz o doutor em antropologia e professor da Ufba Jocélio Teles, 56, coordenador do estudo. “A região tem terrenos bem maiores do que os localizados em bairros próximos ao centro, além de uma ecologia mais propensa com matas e mananciais”.

Não há dados  atualizados, mas a construção de novos templos e as placas de “vende-se” espalhadas pelo loteamento, mostram que o número de terreiros pode ter aumentado. Do ponto de vista     arquitetônico , a expansão não é tão  visível.

Só quem tem intimidade com os signos do candomblé percebe sinais que indicam um terreiro funcionando em determinado imóvel: a   bandeira branca tremulando no telhado ou as “cortinas de mariô”, feitas  com a palha do dendezeiro e penduradas no alto das janelas e das portas para dar  proteção espiritual aos templos.

Boa vizinhança

Família Nascimento: quatro gerações reunidas no terreiro Ilê Axé Omi Selêji, em Cajazeiras
Família Nascimento: quatro gerações reunidas no terreiro Ilê Axé Omi Selêji, em Cajazeiras

A relação entre as muitas casas de santo da região é marcada pela cordialidade. Queixas só em relação à infraestrutura. Algumas ruas estão asfaltadas, mas o ponto de ônibus é distante. “Era bom que subissem aqui pelo menos veículos alternativos”, diz Edivaldo Cordeiro. As tardes no Loteamento Santo Antônio, em geral, são tranquilas. E cada terreiro tem sempre alguém pronto a atender os visitantes. É assim no Ylê Axé Omi Selêji, dirigido por Marivalda Nascimento, 54.

Construído há 12 anos, foi o primeiro a se instalar na rua  1ª Travessa Paloma do Carmo. Sua comunidade reúne cerca de 40 pessoas, todas do núcleo familiar de Maria Ângela Santos do Nascimento, 76, conhecida como Mariinha . Foi dela a ideia de trocar a casa onde morava, em Pernambués, pelo lote em Cajazeiras 11.

A direção da casa foi assumida por sua filha, Marivalda.   “Aqui, nós vivemos em harmonia. Até mesmo na hora de combinar o horário das festas”, diz. O elogio à boa vizinhança envolve também  a vizinha da casa ao lado, Valdeci Bispo Timóteo, 47, que é da Assembleia de Deus.

Marivalda diz que nunca houve desavença entre elas por causa da religião. “Ela segue a fé dela e nós a que escolhemos”. Valdeci confirma e recorre às “escrituras sagradas” para justificar a boa convivência: “A Bíblia diz que cada um tem seu livre-arbítrio. O mundo é grande, dá para todo mundo viver como escolhe”.

Lutas conjuntas

Líderes de três terreiros estão se organizando agora para conseguir que a 1ª Travessa Paloma do Carmo ganhe asfalto. O assunto é o que mais aparece nas conversas do “povo de santo”, assim que avista Douglas Tavares, 39, presidente da associação de moradores União do Lote Cajazeiras 11. Douglas diz  que é católico, mas que, por conta da convivência com o povo de terreiro,  tem procurado aprender mais sobre o candomblé. “Vem muita gente de fora, para as festas”, comenta, em conversa com o babalorixá Luciano Bispo dos Santos, do Ilê Axé Yá Omo Odu.

“Nesses dias é um problema para que as pessoas possam subir a ladeira, principalmente à noite”, diz o babalorixá, que, antes de optar por Cajazeiras,  chegou a pensar em comprar um terreno em São Cristóvão. Oxum, no jogo de búzios, não ficou satisfeita. “O lugar não tinha água”, diz. Foi uma de suas filhas de santo que lhe falou sobre o local. “Quando cheguei aqui, senti que era o ideal por conta das nascentes. Oxum, aqui, está em casa”.

Folhas e fé

Como sempre tem gente nova chegando ao loteamento, o que demanda oferta de serviços, o comerciante Jumar Santos da Paixão, 45, também babalorixá, montou uma lojinha com artigos básicos para a prática religiosa, como folhas, aves e contas.  “Se precisar de algo que não tenho aqui, posso providenciar por encomenda”, diz a quem chega. A loja fica na 2ª Travessa Paloma do Carmo,  vizinha à sede  do Ilê Axé Alá Omiguian, comandado por ele e instalado há 18 anos no loteamento.

Pai Jumar Santos da Paixão em seu terreiro, o Ilê Axé Ala Omim Guiam
Pai Jumar Santos da Paixão em seu terreiro, o Ilê Axé Ala Omim Guiam

Jumar chegou ao terreno em Cajazeiras seguindo as indicações do caboclo que incorpora, chamado Rei das Matas. “Fui buscando informações e, quando cheguei, no início da ladeira, o caboclo me pegou e veio me trazendo até aqui”. O começo foi sofrido. Para conseguir uma linha telefônica, foram três meses. Mas o espaço de 20 mil metros quadrados valeu o sacrifício. Atualmente, além da lojinha e do terreiro – consagrado ao orixá  Oxaguian -, ele construiu um salão exclusivo para as festas do caboclo, nas margens do rio Ipitanga.

Mas, além da mata e do rio, a região de Cajazeiras  tem outro trunfo: a Pedra de Xangô. Oficialmente, ela fica na Avenida Assis Valente, em Cajazeiras 10, mas foi adotada pelo povo de santo do Loteamento Santo Antônio.

Formação rochosa com uma espécie de coroa de arbustos no topo, a pedra foi declarada área regida por Xangô, o dono dos raios.     As ações de proteção são cobradas pela  Associação Pássaro das Águas, criada em 2009 e que reúne 112 templos, incluindo os de áreas vizinhas. Anualmente, a associação realiza uma caminhada, no segundo domingo de fevereiro.

A ialorixá Iaraci Santos Brito, 48, mais conhecida como mãe Iara de Oxum, líder do terreiro Ilê Axé Tomi Kiosise Ayo, comanda a associação.  “Com a abertura da avenida em 2004 a pedra ia ser implodida. A sorte foi que um rapaz chamado Ramalho se acorrentou a ela”, conta.

Tombamento

Até a década de 90, a pedra ficava no meio de  um rio que foi aterrado.  Agora, o  local está   prestes a receber a  proteção do tombamento municipal. “O processo foi aberto há um mês. Foi uma das primeiras demandas, desde que a Lei de Tombamento Municipal foi aprovada, em 2012”, diz  Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Mattos.

Conta a tradição que a pedra  fez parte do Quilombo do Urubu, área de  resistência contra a escravidão que migrou por algumas regiões da cidade, como  Itapuã e Cajazeiras . Mãe Iara torce pelo tombamento, pois a pedra já foi alvo de intolerância  – em  novembro do ano passado, espalharam quilos de sal grosso ao seu redor. E confia na força da organização. “A gente grita e faz caminhada, pois sem água, mata e tudo da  natureza não tem candomblé”.

Vista do Loteamento Santo Antônio, em Cajazeiras 11, que é conhecido como "Shopping dos Terreiros"
Vista do Loteamento Santo Antônio, em Cajazeiras 11, que é conhecido como “Shopping dos Terreiros”

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1683643-vizinhanca-de-santo

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *