Voo precoce para uma outra dimensão

Músico queria chegar ao candomblé pela visão sinfônica, mas trabalho de criação foi ampliado pela força da oralidade, se aproximando de outras culturasFoto: Divulgação

Aos 27 anos, Vitor Araújo faz o caminho de intérprete a maestro em seu novo disco “Levaguiã Terê”, calcado no sincretismo cultural do Brasil

Por: Camila Estephania, da Folha de Pernambuco em 16/10/16 às 11H47, atualizado em 16/10/16 às 12H52

 

Músico queria chegar ao candomblé pela visão sinfônica, mas trabalho de criação foi ampliado pela força da oralidade, se aproximando de outras culturasFoto: Divulgação
Músico queria chegar ao candomblé pela visão sinfônica, mas trabalho de criação foi ampliado pela força da oralidade, se aproximando de outras culturas. Foto: Divulgação

 

Radicado atualmente em São Paulo, o pernambucano Vitor A­raújo se dedica há alguns anos ao estudo da composição e, antes de entrar em estúdio para gravar seu segundo disco solo, estabeleceu um desafio: criar seu próprio repertório para orquestra. Aos 27 anos de idade, o músico planejou combinar a musicalidade de terreiro com as referências eruditas, mas viu o “Levaguiã Terê”, como foi intitulado o trabalho, determinar seu próprio caminho.

Nome de um pássaro que voa em outra dimensão, de modo que só poderíamos ouvir seu canto na Terra, o Levaguiã Terê é uma lenda indígena que o músico ouviu de um guia quando viajou para o Vale do Catimbau, entre o Agreste e o Sertão pernambucanos. A história ficou armazenada na memória de Araújo até que a semelhança com os mitos dos orixás Oduduá e Oxalá despertou a percepção do sincretismo cultural brasileiro, que se tornou a matéria-prima do álbum.

“Meu objetivo inicial era falar do Candomblé a partir de uma visão sinfônica, aí me recordei da história do Levaguiã Terê. Essa força da oralidade e a aproximação entre as culturas chamaram a minha atenção. O disco foi se tornando um organismo, assumindo forma própria”, explica Araújo, ao defender que a justaposição entre as sonoridades tribais, de terreiro e eruditas foi uma imposição que o próprio disco trouxe consigo.

Logo na abertura do trabalho duplo, com a vigorosa “Toque Nº 1: Rando Fálcigo” esse sincretismo fica evidente, trazendo à tona a ancestralidade que formou a cultura brasileira. A herança clássica europeia se funde às percussões trazidas pelos africanos e, embora se trate de um trabalho instrumental, as vozes emulam os cantos rituais indígenas.

“Esse foi o meu primeiro disco escrevendo para grande orquestra e todo meu estudo foi autodidata, então, sem dúvida, usei muito Villa-Lobos, estudei muito Stravinski, Strauss, mas não é um disco erudito. Nesse sentido acho que está mais parecido com o que o Tom Jobim fazia em ‘Matita Perê’, que era orquestral, mas processualmente popular”, define Araújo, que ainda recebeu dicas e teve as partituras revisadas pelo pernambucano Mateus Alves. É dele a composição de “Toque Nº 4: Caldi-Naguará”.

A faixa é uma das que mais se aproximam da música erudita e um dos raros momentos em que o piano é o protagonista. “É meu instrumento de formação, antes meu trabalho era de intérprete. Estou assistindo a muitas aulas por aqui e, nesse disco, o papel do piano não é o principal, porque, para mim, me interessa mais o processo de composição agora”, explica ele, que também gravou voz, violão, surdo, sinth e órgão de tubo para o trabalho.

Interferência
Outro nome que compôs para o trabalho foi o violinista e guitarrista Felipe Pacheco, da banda carioca Baleia, que assinou as faixas “Espelho/Rotunda” e “Rotunda/Espelho”, explorando o limite entre música e ruído na transição entre a primeira e a segunda parte do disco. “A estética contrapõe as partes: são seis toques e seis cantos”, explica ele, que na segunda metade do disco, assume uma linguagem mais pop, como fica evidente em faixas como “Canto Nº3: Vuto Flâmego”.

A diversidade de texturas sonoras, o músico atribui ao produtor Bruno Giorgi, filho de Lenine, que já assinou trabalhos como “Chão”, do pai, e “É”, de Duda Brack. “Escolhi ele por conta do ‘Limbo’, da banda (pernambucana) Rua. Fiquei muito impressionado com a interferência estética do som. Desde o princípio estava estabelecido que eu iria gravar com orquestra sinfônica e percussão orgânica, então não seria uma gravação linear. Queria muito trabalhar com alguém da minha idade, que não estivesse calejado a um padrão e bem aberto a experimentar”, elogia ele.

As percussões imponentes, por sua vez, são de Amendoim, Nego Henrique e Rafa Almeida, os dois últimos ex-Cordel do Fogo Encantado. Também tocaram no disco Hugo Medeiros, Gabriel Ventura e Vinícius Sarmento. A arte gráfica é de Raul Luna e o álbum foi financiado pelo edital da Natura Musical. “Levaguiã Terê” reafirma o precoce amadurecimento musical de Vitor Araújo.

 

Extraído do site de notícias FolhaPE / Recife – PE
http://www.folhape.com.br/diversao/diversao/geral/2016/10/16/NWS,2548,71,480,DIVERSAO,2330-VOO-PRECOCE-PARA-UMA-OUTRA-DIMENSAO.aspx

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