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Xireando o yoruguês

Foto: site Correio Nagô
Foto: site Correio Nagô

Maria Stella de Azevedo Santos | Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá | opoafonja@gmail.com

 

Ter, 23/02/2016 às 11:45

 

 

Somos tantos em um só que, às vezes, precisamos nos ouvir e assim entender qual de nós está com a palavra, apenas para no final descobrirmos que somos um só nos muitos que falam através de nós. Sei que não estou escrevendo de maneira tão simples como me é peculiar, mas o que que se pode esperar de alguém que brincou uma semana no Carnaval de 2016 de Salvador-Bahia fantasiada de “pijama cochilona”?… Pronto! Aqui está uma parcela de mim no comando: Odé kayodê – o caçador que traz alegria. Sou também a iyalorixá Mãe Stella de Oxossi: a que fala, age e escreve sobre espiritualidade. Mas hoje quero que entre em ação Maria Stella de Azevedo Santos: aquela que por obra do destino e por amor dos baianos foi escolhida para fazer parte da Academia de Letras da Bahia, ato que me fez lembrar que não sou descendente apenas dos africanos, o sangue de meu avô português corre em minhas veias, devendo comprometer-me, então, com o idioma yorubá e o português.

Escrevi livros, gravei DVD, estou fazendo um aplicativo para celular… tudo isto com o intuito de preservar a língua yorubá, uma vez que ela encontra maior significado apenas nas comunidades religiosas onde são faladas. Agora volto minha atenção para a língua portuguesa, que possui regras gramaticais que lhe são próprias. É claro que toda regra tem exceção, mas creio que não se deve fazer da exceção uma regra. Será que aboliram o plural da língua portuguesa e não me dei conta desta reforma? Será que é um modismo falar: “as casa”, “os homem”? Será que estão fazendo “sopinha de s” e bebendo com todo o gosto? Será que a língua oficial do Brasil é agora a “língua de Eulália”?…

Ousando-me sugerir alguma coisa para pessoas que não pediram sugestões, sugiro bom senso: falar entre amigos não é o mesmo que escrever no trabalho; quem fala sem respeitar as normas gramaticais escreverá da mesma maneira e correrá mais riscos de ser eliminado em uma concorrência de emprego. É o africano que pode falar: os orixá, os axé, as iyalorixá, os ebó. Afinal, a gramática da língua trazida pelos africanos não forma o plural com a letra “S”. Mas, pensando que esta “abolição do S” na fala dos brasileiros talvez seja, simplesmente, um “sincretismo” entre o yorubá e o português, aproveitei nossos domingos tão solitariamente acompanhados para brincar de fazer rap com minha filha, o qual nós intitulamos Xireando o yoruguês. Como não gosto de me considerar “música de uma nota só”, preferindo pensar que somos um só nos muitos que falam através de nós, arvoro-me a participar da ala dos metidos a compositores. Estamos brincando de brincar. Tem algum compositor e cantor que queira brincar conosco? O convite está feito. Segue a letra para um rap ou qualquer outra melodia que lhe seja adequada.

“Xireando o yoruguês/ esta é a nossa vez/ de conhecer o yorubá/ sem esquecer o português./ Sirê é o verbo brincar/ na língua yorubá/ é também um ritual/ que muito além de divertir/ tem a função de encantar./ Yorubá, idioma africano/ rico em sabedorias/ maliciosamente espalhadas/ no carnaval da Bahia./ Português, língua oficial/ falada em nosso dia a dia/ sua origem latina explica/ aquilo que se complica./ Brincar é enlaçar, é encantar, é enfeitiçar/ esta é uma explicação/ para que nosso povo mestiço/ tenha a noção/ do verdadeiro sentido do feitiço./ Feitiço é encanto, é enlaço/ feitiço e abraço – é faraimará./ Uma nação consciente/ tem que ter em mente/ educar seu povo a não prejulgar./ Brincar é enlaçar, encantar, é enfeitiçar/ Feitiço é encanto, é enlaço, é abraço/ Abraçar é faraimará/ na língua yorubá”.

Feliz ano letivo para todos e que não se esqueçam de estudar o plural das palavras.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/1749013-xireando-o-yorugues-premium

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

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